Desde que a Lei 14.300/22 entrou em vigor, a expressão "Fio B" virou o centro de uma das maiores confusões do setor de energia solar no Brasil. Instaladoras às vezes minimizam o impacto; matérias de jornal às vezes catastrofizam. A realidade está nos números — e é o que vamos mostrar aqui.
Por que o Fio B foi criado?
O argumento técnico é legítimo: quem injeta energia na rede usa a infraestrutura da concessionária para "transferir" seus créditos. Essa infraestrutura tem custo de manutenção e expansão. Enquanto poucos consumidores tinham solar, o impacto era negligível. Com mais de 4 milhões de sistemas instalados em 2025, o volume de energia transitando pela rede tornou o custo relevante para todos os consumidores — incluindo os sem solar.
A Lei 14.300/22, regulamentada pela ANEEL através da Resolução Normativa 1.059, determinou que esse custo fosse repassado gradualmente aos geradores distribuídos que conectaram seus sistemas após 7 de janeiro de 2023.
Quem paga e quem está isento?
A lei criou três grupos distintos:
GD I — Isento até 2045. Quem protocolou o pedido de conexão até 7 de janeiro de 2023. Esses consumidores mantêm as regras antigas (compensação 1:1, sem Fio B) até 31 de dezembro de 2045.
GD II — Paga o Fio B progressivamente. Quem conectou após 8 de janeiro de 2023 com potência até 500 kW. Este é o grupo que afeta a maioria dos novos projetos residenciais e comerciais de pequeno porte.
GD III — Regras específicas. Sistemas acima de 500 kW em modalidade de autoconsumo remoto ou geração compartilhada, com um único titular com 25% ou mais do excedente. Regras diferenciadas regulamentadas pela ANEEL.
A progressão do Fio B ano a ano
Para o GD II, o percentual da TUSD Fio B cobrado aumenta a cada ano a partir da data de conexão. A tabela referência é calculada a partir do ano de protocolo — não do ano calendário. Veja a progressão para quem entrou em janeiro de 2023 (o caso mais comum):
A partir de 2030, a ANEEL definirá se haverá uma cobrança adicional além dos 100% do Fio B — esse é o ponto que o setor ainda monitora e que depende do resultado do processo de valoração dos benefícios da geração distribuída, previsto na própria lei.
Quanto o Fio B representa em reais?
Aqui mora a confusão: o Fio B não é 45% da sua conta de energia. É 45% da TUSD Fio B, que é apenas uma componente da tarifa total. A TUSD Fio B representa em média 28% da tarifa de distribuição — e a distribuição é apenas uma parte da tarifa total.
Na prática, o impacto real para um sistema residencial típico de 5 kWp que injeta 350 kWh/mês na rede, com tarifa de R$ 0,95/kWh:
Esses valores são estimativas baseadas na TUSD Fio B média nacional. O valor real varia significativamente por concessionária — a CPFL Paulista tem um Fio B relativamente baixo em proporção à tarifa total, enquanto concessionárias do Nordeste apresentam valores proporcionalmente maiores.
Existe alguma forma de não pagar o Fio B?
Sim — através da simultaneidade. Quando você consome a energia solar no exato momento em que ela é gerada, ela não passa pela rede da concessionária. Logo, não há uso de infraestrutura e não há cobrança de Fio B.
Na prática, isso significa que o impacto do Fio B é proporcional ao quanto você injeta na rede — não ao quanto você gera. Sistemas com baterias, que armazenam o excedente e o consomem à noite, reduzem substancialmente a injeção e, portanto, o custo do Fio B. O custo das baterias, porém, precisa ser avaliado no contexto do payback total.
Como o Fio B afeta o payback na prática?
Vamos comparar dois cenários com o mesmo sistema de 5 kWp instalado em São Paulo (tarifa CPFL: R$ 0,96/kWh), investimento de R$ 25.000, consumo de 500 kWh/mês:
| Cenário | Payback simples | Payback c/ inflação tarifária | Economia em 25 anos |
|---|---|---|---|
| GD I — sem Fio B (conectado antes de jan/2023) | 4,2 anos | 3,7 anos | R$ 198.000 |
| GD II — com Fio B progressivo (conexão 2026) | 5,1 anos | 4,4 anos | R$ 163.000 |
A diferença é real — mas não inviabiliza o investimento. Mesmo com o Fio B pleno em 2029, o sistema de energia solar continua sendo um dos investimentos com melhor relação risco-retorno disponível para pessoas físicas no Brasil, especialmente considerando a inflação tarifária histórica.
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Calcular meu payback realO que esperar de 2030 em diante?
A Lei 14.300 prevê que a ANEEL deve concluir a valoração dos benefícios e custos da geração distribuída para definir o modelo definitivo a partir de 2030. O setor debate duas possibilidades principais:
Manutenção da TUSD Fio B em 100%. Cenário considerado mais provável pelo mercado — o custo de uso de rede seria integral, sem cobranças adicionais.
Expansão para outros componentes tarifários. A chamada "Alternativa 5" prevista nas consultas públicas da ANEEL expandiria a cobrança para além do Fio B. Este cenário seria mais impactante para novos projetos, mas ainda depende de regulamentação.
O que é certo: quem instalou antes de 7 de janeiro de 2023 não será afetado por nenhuma dessas mudanças até 2045. E quem instala hoje precisa incorporar o Fio B nos cálculos — o que nossa calculadora já faz automaticamente.